CONAE 2013/2014: Um espaço de autoria na educação

31/05/2013 13:55

CONAE 2013/2014: Um espaço de autoria na educação

                                                                                              Rosana Santos Rodrigues

                                                                                              Coordenadora da 2ªCRE

Em tempos de conferência, sobre tema tão importante quanto a educação, abre-se um cenário de fortes disputas sobre os novos rumos na área. Essas disputas nos fazem lembrar a história da política educacional, das diretrizes e práticas sobre as quais se alicerçou até o presente o nosso modelo educacional. Calcada na dualidade, a nossa educação procura superar a dicotomia educacional (escola pra elite e escola para os operários) no sentido de suplantar o velho paradigma educativo e inovar com um modelo de educação integral com uma nova visão. O novo modelo coloca o tema do trabalho, como gerador de vida, no centro das discussões, e a pesquisa socioantropológica (que pensa o processo a partir de contextos sociais situados), como metodologia orientadora para o processo da relação homem/trabalho/natureza e homem sociedade.

Entretanto, para fazermos um debate dessa natureza é necessário que façamos primeiro algumas reflexões:

Primeiramente, refletir sobre as teorias que embasaram as diretrizes do modelo educacional brasileiro até agora, que, dicotomicamente, deram vida a um modelo de sociedade de comportamento e prática dual.

Segundo, é necessário refletirmos sobre os espaços de debate que fortaleceram a construção desse modelo educacional e de sociedade, fundamentada na dualidade e pensada para perpetuar a diferença de classes sociais.

Em terceiro lugar, devemos analisar as teorias que apontaram as contradições do modelo educacional brasileiro, levantando um importante debate. Este debate está hoje colocado no cenário educacional e está se fortalecendo por dentro de algumas diretrizes que orientam a escola brasileira.

Em quarto e último lugar, temos que observar as lacunas construídas por esse modelo de educação/sociedade na relação homem/trabalho/natureza e homem sociedade. Além disso, é preciso atentar para as novas metodologias adotadas pelo sistema neoliberal para manter esse modelo por meio das grandes mídias, distanciando as massas da apropriação do conhecimento.

Um longo e árduo caminho se abre para pensar um novo modelo de sociedade através da educação. Para isso torna-se inviável um debate sem que tenhamos presentes os fatos e os feitos históricos produzidos pela educação no Brasil.

O desafio posto é o de produzir novas leituras e novas práticas sobre a política educacional do país. Essas leituras e práticas exitosamente contempladas nos temas que a II CONAE aborda, como o novo Plano de Educação do Brasil, o novo Sistema Educacional Brasileiro e o Financiamento e Parcerias entre os Entes Federados. O debate abre a possibilidade de questionar com mais força o antigo e o presente paradigma educacional que orienta a nossa educação de forma excludente, buscando caminhos alternativos para consolidar uma única direção, qual seja uma educação para todos e de qualidade.

Sobre o primeiro ponto de debate devemos ressaltar que as teorias que pautaram a educação brasileira, e por vezes a sociedade, estão centradas no grande capital e preservam o status quo de uma minoria social. As presentes teorias mantiveram historicamente um modelo de educação dual que privilegiadamente formava os filhos das elites para ocupar os espaços de decisão e de poder do Estado brasileiro e do grande capital. Já os filhos dos pobres eram preparados para ocupar os espaços de produção, sob o domínio do Estado e do capital, com a única e exclusiva perspectiva de sobrevivência. A preocupação de pensar a relação homem/trabalho/natureza e homem sociedade foi afastada do processo educativo. Ainda, o modelo visava preservar as extravagâncias do sistema capitalista/neoliberal e de seus pensadores espalhados pelo mundo.

Relativo ao segundo ponto é importante lembrar que os espaços consolidados para pensar a educação/sociedade no Brasil se mantiveram restritos aos grandes centros de poder, orientados pelo capital. Podemos perceber que a educação sempre foi vista pela elite como um divisor de águas e, por isto, um debate feito por economistas, empresários, industriais, latifundiários e grandes corporações, sustentados pelos poderes constituídos como o Judiciário e o Ministério Público. Isso nos força a pensar sobre o papel que o professor brasileiro cumpriu e ainda cumpre, de certa forma, nas escolas públicas, levando a mensagem do capital, preservada pela mídia brasileira, que ainda dita as regras da opinião pública.

Por mais autonomia que o magistério brasileiro tenha conquistado por intermédio dos espaços de resistência construídos, como sindicatos e outros movimentos sociais, o professor sempre foi orientado para satisfazer o capricho das elites. Cabia ao professor espalhar um modelo de educação dual e pouco preocupado com as conseqüências geradas ao largo da história, no que tange a cultura, ao trabalho, ao meio ambiente e às questões sociais.

É bom ressaltar, portanto, que por dentro dos espaços de resistência foram despontando ícones como Paulo Freire, Carlos Rodrigues Brandão, Gaudêncio Frigotto e Marilena Chauí, que construíram cortes de pensamento, abrindo historicamente o debate desnudado pela sociedade às custas de muitas dores, cerceamento de liberdades e mortes.

Sobre as teorias que apontaram o contraditório, essas foram forjadas historicamente por dentro de revoluções, ditaduras, movimentos, e pensamentos teóricos elaborados por um conjunto de atores com uma linha de pensamento contrária a pauta estabelecida pelo sistema capitalista (Carl Marx, José Marty, Antônio Gramsci, Paulo Freire, Gaudêncio Frigotto, Carlos R. Brandão).  Essas teorias nasceram e foram ganhando força nos movimentos sociais, como MST, sindicatos, partidos políticos, pois elegeram o contraditório do sistema capitalista/neoliberal para apontar os novos rumos para a educação brasileira. De um lado questionaram, e ainda questionam, o que o sistema produziu, (catástrofes sociais nos EUA e Europa). Por outro lado, apontam e elegem um modelo de educação que caminha por dentro do sistema produtivo, colocando o trabalho como centro orientador do debate sobre a educação, na relação homem/trabalho/natureza, homem sociedade e a pesquisa socioantropológica, como metodologia para fomentar o diálogo e propor uma reflexão paradigmática para o processo de mudança.

No quarto ponto devemos enfatizar o debate em torno das lacunas sociais, ambientais e culturais produzidas pelo sistema neoliberal, que não são poucas. Aqui podemos, por exemplo, refletir sobre os grandes avanços da ciência e da tecnologia na área da medicina e questionar historicamente o acesso a essa medicina por parte da grande maioria da população. Outro exemplo é o caso da poluição das águas, mesmo que isso seja gritante ao longo da história, o setor produtivo continua a poluir grande parte dos nossos mananciais. Na área social, o sistema produziu mazelas, não somente do ponto de vista de uma educação dicotômica, mas forjou gerações e gerações descomprometidas social, ambiental e culturalmente. Mesmo assim, e de forma insistente, procura reafirmar pelas grandes mídias, a violência, a discriminação social, a criminalização dos movimentos, a morte, a dualidade do processo educativo, a exclusão social, o subemprego, o controle sobre o sistema e cadeias produtivas, a produção, venda e aplicação de agrotóxicos no sistema produtivo etc.

Pontuando isso percebemos que as gerações mais jovens, vêm se fortalecendo através das novas tecnologias, com uma nova forma de pensar e agir. Isso talvez provoque cortes de pensamento, abrindo espaço para questionar aquilo que está posto como verdadeiro e que nossos professores disseminaram através de suas práticas(apesar de as vezes não terem o domínio das novas tecnologias). É interessante refletir sobre a fragilização provocada por este fenômeno: de repente muda a relação aluno/professor e muda também a relação com o próprio conhecimento.

Ainda não podemos medir todos os impactos produzidos pelas redes sociais, pelas novas tecnologias e pelas novas mídias, que avançam na construção de novos atores coletivos. Cabe ressaltar que este movimento, como todos os outros, vêm também marcado por disputas e embates teóricos e filosóficos. É crucial também questionar até que ponto as mídias, através das novas tecnologias, estão de posse dos novos atores. Ou ainda estão sob o domínio do grande capital?

O debate sobre o novo modelo educacional no Brasil é decisivo e impactante para as gerações presentes e futuras, pois não é a toa que as grandes corporações controladoras do sistema educativo/produtivo e das cadeias produtivas se colocam no centro desse processo.

Precisamos aproveitar a II CONAE para assumir nosso espaço de autoria no processo educacional. Nós somos os atores da educação e não os reprodutores de ideias pensadas por atores sociais com outras agendas que não as do interesse coletivo.