Professores têm formação sobre reestruturação curricular

18/07/2013 09:36

 

Nesta quinta (18), 320 professores das séries finais do Ensino Fundamental estão reunidos para discutir a reestruturação curricular, no auditório do Colégio Sinodal, em São Leopoldo. A professora da Faculdade de Educação da UFRGS, Aline Cunha, antes de falar em currículo, falou nos sujeitos que estão nas escolas: “precisamos conhecer o sujeito de forma integral, com uma visão sociológica, antropológica, psicológica, para atingir o objetivo da escola, que é a produção do conhecimento”.

O conhecimento, de acordo com Aline, precisa circular na escola e as vivências dos alunos devem integrar os currículos. “Se os alunos têm como fundamento a violência, em meu ‘delírio pedagógico’ eu trabalho, por exemplo, o código de hamurabi e discuto a lei do “olho por olho e dente por dente”, discuto organizações sociais baseadas na violência, discuto sobre a valorização de práticas violentas em produções cinematográficas, promovo debates, organizo assembleias para que os alunos aprendam a discutir e a discordar entre si sem se agredir. Exercitamos, assim, a democracia, a solidariedade e a participação e quebramos o mito de que o conhecimento dos alunos não é válido”.

Aline traz ainda exemplos sobre as condições sociais dos alunos, que devem ser trazidas para o currículo para produzir conhecimentos: “se meu aluno vem com pouca roupa para a escola e passa frio, eu uso o fato para gerar movimento e conquista de direitos. Muitos poderão dizer, ‘ah, mas você não é assistente social’, porém se eu não olhar para o meu aluno na sua totalidade, vou continuar reproduzindo currículos descolados da realidade e, muitas vezes, sem sentido”, reflete. A pesquisa socioantropológica, nesse sentido, fornece elementos centrais para planejamentos mais contextualizados, reforça a palestrante.

De acordo com Aline, um dos fins da escola é a luta pela democracia na diversidade. Para isso é preciso integrar as diferentes áreas do conhecimento, abandonando a segmentação do conhecimento, o que Paulo Freire chama de “educação bancária”. É preciso também parar de hierarquizar o saber e “atrever-se” a trazer para a escola os conhecimentos não validados pela ciência. Esse é o princípio da transdisciplinaridade, ou seja, a escola se abrindo para conhecimentos novos, não apenas para aqueles legitimados pelo currículo. O prefixo “trans” abre, assim, a possibilidade de transformação.

Além da transdisciplinaridade, que fica no campo do currículo ideal, existem ainda outras possibilidades de organização curricular, como a multi, a inter e a pluridisciplinaridade. Na multidisciplinaridade cada disciplina se organiza sobre si mesma, não dialogando com as demais e não estabelecendo objetivos comuns. Na pluridisciplinaridade existe a ligação entre as áreas do conhecimento, mas ainda não de forma planejada e articulada: a ligação se dá pelo “rádio corredor”, explica Aline. Na interdisciplinaridade existe a clara articulação com os componentes de outras áreas, existe um planejamento coletivo e uma docência compartilhada.

Para a professora Vanessa da Silva Marcon, da Escola Figueiras, de Igrejinha, “repensar o currículo é desestruturante, muda tudo o que sabemos sobre escola, mas é uma mudança necessária e por isso mesmo mexe tanto com a gente”. Na mesma linha, a professora Daniela da Silva Neves, também da Escola Figueiras, atribui a mudança curricular a novas formas de planejar as aulas, novas maneiras de olhar para a escola e seu papel.